“Quando eu era pequenina e espiava o mundo pelas grades do portão, via sempre um véinho passando, gritando: Ói algodão! Um dia, resolvi sair e pegar a fila das crianças.
Fiquei esperando o véinho transformar açúcar em nuvens, açúcar em mágica, em pedaços de carinho. Quando ficou pronto, mal podia acreditar! Peguei o algodão nos dedos e perna-pra-te-catar!
Lá de longe, o véinho gritou: Ô Ritinha, mas e o dinheeeeeeiro, Ritinha? Eu virei e respondi: Não, vô! Num picisa de dinheiro, não! Só o algodão-doce já tá ótimo! Só o algodão-doce tá bão!
O véinho deu risada e logo respondeu: É mesmo, né Ritinha? Só o algodão-doce já tá ótimo! Só o algodão-doce tá bão!”
Doce poesia pura.
Daqui: Jornal das Pequenas Coisas
Numa mão, açúcar branco.
Na outra, fritura.
No hálito, álcool.
No pulmão, fumaça.
No sangue, colesterol alto.
No dia-a-dia, excessos.
Na bolsa, analgésicos.
No troninho, prisão de ventre.
Naquele trânsito, diarréia.
Sobra
sal na batata,
molho na salada,
enlatado na dispensa,
sangue no cardápio.
Falta
cor no prato,
variedade no menu,
auto-disciplina na vida,
saúde no corpo,
consciência na mente.
Acrescente
cereais,
legumes,
verduras,
frutas,
orgânicos,
naturais.
Diminua
refrigerantes,
açúcares,
corantes,
conservantes,
congelados.
Perca
excessos,
dorzinhas,
doenças,
descontroles,
irritações.
Engolindo qualquer coisa,
refletindo sobre coisa nenhuma,
não te tocas que tua alimentação é teu seguro de vida?
Amanda Sul, 26 anos, Rio de Janeiro. Jornalista, pós-graduada em Design Digital, trabalha como redatora e arquiteta da informação.
Fotografia, design, livros, filmes, discos, museus. Viagens pro meio do mato, incenso, natureza, ashtanga yoga. Comida gostosa e saudável, sorrisos, cachorros. Realizações, expansões, equilíbrios.