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Nossos bosques têm mais vida

Aldo Rebelo bem que tentou. É uma pena que o Brasil não valorize a própria cultura. Dia 31 de outubro é dia do saci-pererê, mas quem se lembra? Você viu alguma criancinha fantasiada de gorrinho vermelho na rua?

O que eu vi foram meninas com chapéu de bruxa e meninos com aranhas pintadas nos rostos. Vi lojas decoradas com abóboras e zumbis. Recebi panfletos de festas que estarão recheadas de morcegos e bolas roxas.

Essa é uma das coisas que eu não entendo. O nosso folclore é fantástico, criativo, cheio de personagens interessantes. É colorido, divertido e, o melhor de tudo: é brasileiro. Por que valorizar criaturas de uma festividade que não tem nada a ver com o nosso país?

Já não basta sermos invadidos pela indústria estrangeira, por terminhos em inglês, um Jesus loiro, um papai noel de roupa vermelha e uma estátua da liberdade em plena Barra da Tijuca?

Eu só posso encarar isso tudo como falta de incentivo das escolas, dos pais e do próprio governo de mudar essa situação. Duvido que as crianças não fossem receber iaras, curupiras, sacis e os outros seres da floresta de braços abertos.

Sei que não devemos fechar as portas para influências externas que são positivas para o país. Mas nossa Constituição é clara quando diz que o Estado deve defender a cultura nacional. E nós também devemos defendê-la. Mas isso acaba sendo só mais um valor perdido no meio de tantos outros, com indivíduos mais padronizados e uma sociedade manipulada, voltada para o consumo.

Já passamos por essa desvalorização antes. E nada aprendemos.
Continuamos sendo pobres índios trocando ouro por miçangas coloridas.

(Publicado em 31 de outubro de 2005. Readaptado em 31 de outubro de 2008.)

Reedição Amanda Sul 31 Out 2008 1 Comentário

Can’t buy me love

Eu não acredito mais em dia dos namorados, dia das mães, dia da secretária, nem dia do meio ambiente. Essas datas não servem pra nada, são só dias de obrigações para você provar que o que sente em todos os outros dias é de verdade.

De nada adianta só você mostrar com atitudes sinceras o quanto você ama e se importa com uma pessoa durante todos os outros 364 dias. No dia dos namorados, você tem que bater ponto, com presentinho debaixo do braço, flores, restaurante e motel. Tem. Tudo junto ou pelo menos uma das coisas. É o tal doze de junho. Não programe nada diferente disso para essa data.

Não adianta. O mundo publicitário realmente intoxica as pessoas com essa necessidade de presentear e ser presentado em determinadas datas. Eu, que já não gosto de ver tevê, fico ainda mais agoniada na hora do comercial. Todas as vendas giram em torno da data comercial do momento.

Desconfio de tudo que parece pose.
O que importa são atitudes, sentimentos e vontades reais, em todos os dias.

Mais vale um diazinho qualquer, naquela semana meio morta, onde você está cheia de saudade, doida pra encontrar seu amorzão, e ele aparece na sua porta de surpresa, com um encarte de supermercado recortado em forma de coração. E você olha aquela carinha e tem certeza de que ele te ama, sem que ele precise escrever num cartão ou comprar alguma coisa na intenção de te provar isso.

Claro que é importante estar com quem se ama nesse dia. Mas pisem longe de cinemas, motéis, restaurantes badalados e shoppings. Fujam de presentes comuns e cartões com mensagens decoradas.
Dêem sinceridade, compreensão, amizade, companheirismo! Conversem, brinquem, inovem! Descubram-se mais, amem-se mais!

Presentes não são nada. Têm apenas valores comerciais para lojas de celulares e floriculturas que vendem flores mortas.

Namorados, feliz todos os dias!

(Publicado em 10 de junho de 2005. Readaptado em 12 de junho de 2007.)

Reedição Amanda Sul 12 Jun 2007 3 Comentários

Qual seu filme preferido?

Amélie

Eu sempre tive uma tremenda dificuldade em escolher os melhores de alguma coisa. Melhores filmes, melhores livros, as comidas mais gostosas, as cores preferidas, o top 5.

Aqueles caderninhos de pergunta da nossa adolescência eram o bicho. Adolescentes cheios de hormônios saltitando podem ser criaturinhas com perguntas bem complicadas de se responder. Eu, aliás, adorava perguntar, mas minhas respostas sobre os tais preferidos eram sempre bem vagas.

Mas, isso se deu com certeza porque eu ainda não tinha assitido metade do que eu já assisti hoje em dia. Dos meus 15 anos pra cá, posso dizer que minha mente e minha vida sofreram uma enchente de coisas novas - e o melhor - de coisas boas! Quem disse que aquela era a melhor fase da vida se enganou redondamente, pelo menos no quesito cultural. É muito bom ter os primeiros beijos e as primeiras saidinhas, mas definitivamente os primeiros filmes, livros e comidas não são de uma qualidade que se possa levar em conta.

Hoje em dia tenho uma lista simpática de coisas preferidas e, apesar de incompleta devido à minha mente incapaz de gravar tantos dados, me sinto satisfeita por tê-la, mesmo que em fragmentos. Não sei para que ela me é útil já que não existem mais cadernos de perguntas na minha faixa etária, mas, deve ser para isso que serve o Orkut.

Voltando à raiz principal desse texto, o fato é que, se eu sempre achei difícil escolher os prediletos, quem diria eleger um só. Mas hoje em dia, tudo bem, arrisco dizer qual foi a melhor película que eu e minha pipoca com leite condensado já assistimos.

Mas o que faz um filme ser o meu predileto?
Eu diria que, além da história, dos personagens, da fotografia e da trilha sonora, o meu filme predileto só poderia ser aquele que causa alguma reação em mim. Aquele que traz uma identificação, que me tira um pouquinho da realidade nua e crua e me transporta pra um mundinho de sonhos e coisas bonitas.

O meu mais-mais é “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”. Procure na locadora mais perto de você. Sim, é aquele dvd fora de catálogo, com cara de largado na prateleira, como se ninguém quisesse assisti-lo. Eu me apaixonei em dois segundos de filme e assisti três vezes no mesmo dia.

O filme fala sobre pequenas coisas. E eu tenho a capacidade de ser feliz com coisinhas que aparentemente não valem nada. Encontrar um cachorro na rua me faz abaixar pra dar uma coçadinha nele. Estar andando pela calçada à noite e perceber que é dia de lua cheia me faz parar para assitir o céu como uma boboca. Encontrar no chão uma folha de árvore em formato de coração me faz guardá-la na carteira. Eu não passo despercebida por essas coisas. Eu não preciso de nada grandioso pro meu dia se tornar especial. Sorrir é muito fácil pra mim.

O meu filme preferido é muito mais do que uma história de amor. Ele retrata bem aquilo que temos todos os dias, mas que a maioria das pessoas não dá valor. É uma demonstração de como a felicidade está sim em coisas simples como enfiar a mão num saco de grãos, quebrar a cobertura do “crème brúlée” com a colher e jogar pedrinhas no rio.

Outro lado interessante é mostrar que o seu passado e seu presente podem não ser tão perfeitos como você gostaria, mas isso não quer dizer que você tenha que se tornar uma pessoa amarga. Sempre existem dois lados numa mesma situação e em qual lado você vai focar é uma escolha sua.

Parece bobinho pra você? Pra mim, não. Os problemas não podem ser responsáveis por tornar você alguém de braços cruzados para o mundo. A gente é quem dirige o filme da nossa vida. Nós somos responsáveis por torná-la um drama, um terror ou uma comédia romântica.

Outra coisa que muito me agrada no filme é que ele mostra como todos temos a capacidade de melhorar o dia das outras pessoas. Você pode não resolver todos os problemas de alguém, mas pode sim contribuir para que o dia desse alguém seja um pouco mais feliz. Qual foi a última vez que você ajudou um “ceguinho” a enxergar as coisas da vida? Qual foi a última vez que você trouxe um pouco de esperança a um coração doído?

Também não posso esquecer outro grande aspecto de identificação com a personagem e seu estilo de vida: sua incrível criatividade para criar coisas para outras pessoas. Eu acredito que isso é um dos meus dons. Eu poderia fazer uma imensa lista de lembrancinhas que já fiz pras pessoas que eu gosto e que as deixaram muito mais felizes do que se eu tivesse comprado algo pronto numa loja qualquer.

Enfim. Esse filme francês, dirigido por Jean-Pierre Jeunet e que tem como Amélie Poulain a atriz Audrey Tautou me encanta, me faz dançar no ar ao som de “La Valse d’Amélie” e me faz esquecer um pouco o mundo lá fora e voltar um pouco ao meu mundinho de sonhos.

Assista, e volte também ao lugar mais puro do seu coração.

Reedição Amanda Sul 03 Abr 2007 4 Comentários

Nada é o que parece ser

A maioria das pessoas tem a a péssima mania de supervalorizar o outro e nunca estar satisfeito com o que tem. Mas será que é assim mesmo? Será que a grama do outro é sempre mais verde que a nossa?

Tudo de longe é perfeito. Famílias, empregos, filhos, modos de vida.
Mas tudo isso, na verdade, é fruto da nossa imaginação e da nossa cabecinha insatisfeita com nós mesmos.
A tristeza não tem carro de som, com declarações infelizes e pierrots soltando balões pretos no ar.

E assim, de longe, fica parencendo tudo só alegria. Aquela menina sempre sorrindo, aquela família alegre saindo pra passear na praia, aquele casalzinho agarrado na capa das revistas. Mas, quem vai saber o que essas pessoas realmente são?

Vai ver essa menina se esconde atrás de um sorriso forçado e na verdade ela é um poço de grosseria. Vai ver a família feliz indo pra praia se desentende o caminho todo, com os pais emburrados e os filhos querendo estar em outro lugar. Vai ver o casalzinho se agarra nas fotos, mas, na hora de dormir, cada um sonha com um amor perdido.

Acontece, ora bolas, é a vida.
As pessoas falam muito das suas vitórias e camuflam suas aflições - o que faz parecer que a vida do outro é sempre melhor.
Mas não é nada.

A melhor família é a nossa, que a gente conhece bem. O melhor emprego é o nosso, porque foi a gente que conseguiu e é o que sustenta a gente. O melhor namoro é o meu porque quem ama sou eu. E por aí vai. Vamos aprender a valorizar o que é nosso e parar de imaginar como a vida do fulano é tão mais perfeita. Não é nada. Somos todos passíveis dos mesmos erros e sofrimentos, mas também somos assim em relação às alegrias e felicidades.

(Publicado em 21 de fevereiro de 2005.)

Reedição Amanda Sul 13 Mar 2007 4 Comentários