
Eu sempre tive uma tremenda dificuldade em escolher os melhores de alguma coisa. Melhores filmes, melhores livros, as comidas mais gostosas, as cores preferidas, o top 5.
Aqueles caderninhos de pergunta da nossa adolescência eram o bicho. Adolescentes cheios de hormônios saltitando podem ser criaturinhas com perguntas bem complicadas de se responder. Eu, aliás, adorava perguntar, mas minhas respostas sobre os tais preferidos eram sempre bem vagas.
Mas, isso se deu com certeza porque eu ainda não tinha assitido metade do que eu já assisti hoje em dia. Dos meus 15 anos pra cá, posso dizer que minha mente e minha vida sofreram uma enchente de coisas novas - e o melhor - de coisas boas! Quem disse que aquela era a melhor fase da vida se enganou redondamente, pelo menos no quesito cultural. É muito bom ter os primeiros beijos e as primeiras saidinhas, mas definitivamente os primeiros filmes, livros e comidas não são de uma qualidade que se possa levar em conta.
Hoje em dia tenho uma lista simpática de coisas preferidas e, apesar de incompleta devido à minha mente incapaz de gravar tantos dados, me sinto satisfeita por tê-la, mesmo que em fragmentos. Não sei para que ela me é útil já que não existem mais cadernos de perguntas na minha faixa etária, mas, deve ser para isso que serve o Orkut.
Voltando à raiz principal desse texto, o fato é que, se eu sempre achei difícil escolher os prediletos, quem diria eleger um só. Mas hoje em dia, tudo bem, arrisco dizer qual foi a melhor película que eu e minha pipoca com leite condensado já assistimos.
Mas o que faz um filme ser o meu predileto?
Eu diria que, além da história, dos personagens, da fotografia e da trilha sonora, o meu filme predileto só poderia ser aquele que causa alguma reação em mim. Aquele que traz uma identificação, que me tira um pouquinho da realidade nua e crua e me transporta pra um mundinho de sonhos e coisas bonitas.
O meu mais-mais é “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”. Procure na locadora mais perto de você. Sim, é aquele dvd fora de catálogo, com cara de largado na prateleira, como se ninguém quisesse assisti-lo. Eu me apaixonei em dois segundos de filme e assisti três vezes no mesmo dia.
O filme fala sobre pequenas coisas. E eu tenho a capacidade de ser feliz com coisinhas que aparentemente não valem nada. Encontrar um cachorro na rua me faz abaixar pra dar uma coçadinha nele. Estar andando pela calçada à noite e perceber que é dia de lua cheia me faz parar para assitir o céu como uma boboca. Encontrar no chão uma folha de árvore em formato de coração me faz guardá-la na carteira. Eu não passo despercebida por essas coisas. Eu não preciso de nada grandioso pro meu dia se tornar especial. Sorrir é muito fácil pra mim.
O meu filme preferido é muito mais do que uma história de amor. Ele retrata bem aquilo que temos todos os dias, mas que a maioria das pessoas não dá valor. É uma demonstração de como a felicidade está sim em coisas simples como enfiar a mão num saco de grãos, quebrar a cobertura do “crème brúlée” com a colher e jogar pedrinhas no rio.
Outro lado interessante é mostrar que o seu passado e seu presente podem não ser tão perfeitos como você gostaria, mas isso não quer dizer que você tenha que se tornar uma pessoa amarga. Sempre existem dois lados numa mesma situação e em qual lado você vai focar é uma escolha sua.
Parece bobinho pra você? Pra mim, não. Os problemas não podem ser responsáveis por tornar você alguém de braços cruzados para o mundo. A gente é quem dirige o filme da nossa vida. Nós somos responsáveis por torná-la um drama, um terror ou uma comédia romântica.
Outra coisa que muito me agrada no filme é que ele mostra como todos temos a capacidade de melhorar o dia das outras pessoas. Você pode não resolver todos os problemas de alguém, mas pode sim contribuir para que o dia desse alguém seja um pouco mais feliz. Qual foi a última vez que você ajudou um “ceguinho” a enxergar as coisas da vida? Qual foi a última vez que você trouxe um pouco de esperança a um coração doído?
Também não posso esquecer outro grande aspecto de identificação com a personagem e seu estilo de vida: sua incrível criatividade para criar coisas para outras pessoas. Eu acredito que isso é um dos meus dons. Eu poderia fazer uma imensa lista de lembrancinhas que já fiz pras pessoas que eu gosto e que as deixaram muito mais felizes do que se eu tivesse comprado algo pronto numa loja qualquer.
Enfim. Esse filme francês, dirigido por Jean-Pierre Jeunet e que tem como Amélie Poulain a atriz Audrey Tautou me encanta, me faz dançar no ar ao som de “La Valse d’Amélie” e me faz esquecer um pouco o mundo lá fora e voltar um pouco ao meu mundinho de sonhos.
Assista, e volte também ao lugar mais puro do seu coração.