Não é fácil encontrar a tal alimentação saudável no supermercado. E quanto maior o mercado, pior. De início, “maiores as opções”, você pensa. Um hiper-super mercado, a meu ver, deveria ter hiper-super-opções. E até mesmo alguém que não come carne, não bebe refrigerante e evita coisas excessivamente açucaradas e aditivadas poderia encontrar satisfação na hora das compras.
Mas não. Uma ida ao supermercado pode se tornar uma verdadeira batalha pessoal contra tudo que você acredita. Quanto maior o mercado, mais corredores apinhados de comida embalada, mais conservantes, mais marcas, mais preços altos, mais sacolas de plástico. Mais personagens pra conquistar as crianças. Mais personagens pra humanizar aquela caixa perante um adulto. Mais refrigerantes, mais “sucos” industrializados, sob a chancela de serem light, zero, plus, como se isso fosse bom ou melhor.
Encontramos pães, bolos e biscoitos com todos aqueles nomes indecifráveis nos ingredientes. E esse “T” pilantra que apareceu agora? Transgênico, carimbado no seu biscoito preferido! Hoje, inofensivo, amanhã, ninguém sabe. Nos iogurtes, veja lá: todos os sabores das frutas, mas não são as frutas. São só os sabores. Sabores “idênticos ao natural”. E vamos nos tornando isso, idênticos ao natural, mas de natural mesmo, o que temos?
Temos as folhas e frutas orgânicas, custando dez vezes mais do que as outras. Ou aquelas cheias de agrotóxicos, que lavamos e lavamos, e deixamos de molho, e colocamos mais um industrializadinho pra poder filtrar um pouco todos os venenos já espirrados ali. E aí, você, mortal com verba limitada no mês, que não pode bancar o dia-a-dia do orgânico, fica naquele beco sem saída: nos envenenamos com o morango de preço acessível, um dos mais transmutados e envenenados que existe, ou partimos pro Danoninho, que de morango não tem nada, nem a cor (o rosa é a cor da cochonila, um vermezinho usado morto e amassado nos industrializados), mas que vale mais que um bifinho (!)?
O que é pior, o que é melhor, temos como saber, temos como escolher?
Eu, mais do que cismar com a carne e me sensibilizar com o ser que ela foi antes de virar um pacote, cismo mesmo é com a falta de naturalidade em praticamente tudo que temos pra consumir, com essa tendência a facilitar, artificializar, convencer pelo design da embalagem e cultuar o prazer do sabor e da comodidade.
Enquanto meus pensamentos me consomem, um funcionário do mercado berra as promoções num volume mais alto do que qualquer criatura querendo fazer compras em paz poderia suportar e vejo que todos em volta estão completamente surdos pra pensamentos como o meu, porque na verdade estão escutando a promoção do minuto, correndo e se debatendo pra pegar o salame com cinquenta centavos de desconto.
E tenho a certeza que não refletir, não criticar o rumo da industrialização, da alimentação, e simplesmente fechar meus olhos e nadar a favor dessa corrente seria muito mais difícil pra mim. A gente tem que viver nossa verdade. Essa é a minha. É assim que eu penso, é assim que eu sinto. Acreditar em algo e não o viver que não é certo.
Mas essa não comunhão de pensamentos com a maioria muitas vezes dói… Como a gente quer ser aceito né?
Amanda Sul, 28 anos, Rio de Janeiro. Jornalista, pós-graduada em Design Digital, trabalha com Mobilidade no O Globo.
Fotografia, design, livros, filmes, discos, museus. Viagens pro meio do mato, incenso, natureza, ashtanga yoga. Comida gostosa e saudável, sorrisos, cachorros. Realizações, expansões, equilíbrios.
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